CONTOS E POESIAS

A moça da janela (Conto) 

 

A moça da janela

 

Exatamente todos os dias eu passava naquele mesmo lugar, naquela mesma rua. Ali, algo sempre chamara minha atenção, melhor dizendo… Alguém.

Quando passava de carro a caminho da faculdade, via sempre uma moça na janela de uma casa da região. Não era uma garota comum, embora muitos pudessem achar; ela era diferente, tinha algo diferente. Estava sempre sorridente olhando a rua e era conhecida por sua simpatia e gentileza naquele lugar. Com cabelos negros e olhos claros, ela tinha uma beleza que impressionava de longe à todos que a viam.

Fiquei curioso. Ao investigar o que ela fazia no dia a dia, descobri que nunca saia de casa. Mas porque estaria sempre trancafiada, não saia e nem tinha amigos, se era tão jovem e bonita? Teria um pai super protetor, talvez?

No final de semana fui até a casa moça. Lá estava ela, sorridente e linda como sempre a via. Seus olhos eram ainda mais encantadores de perto, de um tom cor de mel tão claro que constrastava com o sol que invadia sua janela.

Apesar do sorriso, naqueles mesmos olhos, eu vi tristeza. Quando me aproximei ela sorriu  e perguntou o que desejava. Tentei não lhe assustar e fingi pedir uma informação que me foi dada gentilmente.

Os dias se passaram e todo final de semana eu passava na rua daquela bela moça, afim de vê-la. Certo dia, não a vi na janela, mas um leve som de notas musicais que vinham de sua casa chamou minha atenção. Aproximei-me devagar e vi que tocava calmamente um piano em sua sala. De olhos fechados, parecia sentir cada nota dentro de si.

Aquilo me encantou. Ela tocava tão bem, que me perguntei  porque não usufruía daquele belo talento que tinha. Naquele momento ela me pareceu ainda mais perfeita.

Todas as vezes que a misteriosa moça me via passar, sorria. Percebi que aquele era um sorriso diferente dos que dava a todos que lhe cumprimentava com um “bom dia”, isso me deu esperanças. Poderia estar enganado, porém era isso que precentia em seu sorriso. Ela me interessava, mas não tive coragem de perguntar seu nome nem muito menos chamá-la para sair. Porém, decidi que daquela vez, iria falar com ela.

— Olá. – Ela me diz assim que me vê aproximando – Posso ajudá-lo em alguma coisa Senhor? – diz educadamente.

— Sim, na verdade gostaria de te perguntar algo – Sorri. – Qual é seu nome?

– Meu nome é Luz Maria. – diz com um sorriso.

— Se me permite comentar, é um bonito nome. – Ela sorriu. – Posso te fazer outra pergunta?

Envergonhada, assentiu.

Olhei em seus profundos olhos que pareciam dizer tantas coisas, as quais não conseguia decifrar.

– Por que está sempre aqui dentro? Não sente vontade de sair de casa? – Perguntei, calmamente.

Ela baixou a cabeça e me olhou tristemente. – Preciso entrar. Boa tarde, Senhor – diz entrando e fechando a janela em seguida.

— Espera! — falei — O que eu disse de mal?

Fiquei sem entender o motivo dela não ter respondido minha pergunta. Luz Maria… Um nome tão lindo quanto sua dona… Durante dias aquela cena não me saiu da cabeça. Por quê ela agiu daquela forma? Era o que mais queria descobrir.

 

  *** 

Os dias se passaram até que certo dia, quando passava de carro na sua rua para ir a faculdade, uma cena me paralisou por completo. Um caminhão de mudança estava na frente da casa de Luz Maria, certamente estaria se mudando. Parei o carro a fim de vê-la e me assustei.

Ali estava o porquê dela não ter respondido a minha pergunta. Ali estava a explicação para nunca sair de casa, certamente não aceitava a condição em que se encontrava. Ela estava saindo de sua casa em uma cadeira de rodas, uma mulher ajudava-a para entrar em um carro. Percebeu a mim, que estava parado dentro do carro olhando tudo aquilo sem acreditar. Olhou-me tristemente e baixou a cabeça como se estivesse com vergonha, não me deu aquele sorriso como sempre fazia antes, vê-la daquela forma me entristeceu.

O fato de Luz Maria ser paraplégica não me fez perder o interesse em conhecê-la, pelo contrário, me preocupava o fato que  iria se mudar dali. Eu realmente queria conhecê-la, me aproximar dela e não importava o que tivesse que fazer para isso.

O carro onde ela estava deu partida e foi embora seguindo o caminhão de mudança. Seus olhos aparentavam tristeza, aquilo me causou certa aflição. De alguma forma, ela estava pensando que nunca mais voltaria a me ver, mas não seria assim. Foi neste momento que tomei uma decisão, eu iria mudar minha rota. Perdi a aula da faculdade e decidi seguir meu coração, ele me levava até ela.

E lá fui eu, até a moça da janela.

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